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28/10/2018

A história sendo escrita

22:51

Você está, neste momento, testemunhando a história sendo escrita. É o fim de uma era e o início de outra. Aos recém-completados 30 anos da Constituição Cidadã, o povo levou ao poder, de forma democrática, por livre arbítrio, dois militares. Melhor do que espernear, é preciso entender o porquê dessa atitude. O que os civis fizeram de tão errado a ponto de sofrerem tamanha rejeição?

Resista ao falso maniqueísmo: não há uma luta do bem contra o mal, e sim de metodologias para governar. Cabe aos perdedores admitirem suas falhas e respeitarem a vontade do mesmo povo que outrora os colocou no poder. O poder emana do povo, e nunca foi saudável mantê-lo por muito tempo nas mãos de quem quer que seja: acaba por gerar a impressão de que o Estado tem um proprietário, e o nome disso é DITADURA.

Ao invés de invocar demônios, pense em como contribuir para a recuperação da nossa tão surrada pátria. Comece a mudança em você mesmo(a), com o simples enxergar de um país em construção, e não a execução do plano de poder de um ou dois partidos, já acostumados com os vícios do poder.

07/10/2018

Procura-se a Nuninhos

18:31


Pessoal, me ajude a encontrar a Nuninhos. Ela sumiu na noite do dia 03/10/2018 no bairro Recreio, entre o Hiper Bom Preço e a Conquistinha (Vitória da Conquista-Ba).

Características: fêmea, castrada, olhos verdes (não são de cores diferentes), pelo preto e longo. 1 ano de idade quase completo.

Se você viu por aí, pegou (talvez por pensar que é de rua), ou conhece alguém que adotou algum gato preto a partir dessa data, por favor me avise: o número é 71985102502 (WhatsApp, ligação a cobrar ou mesmo chame, que ligo de volta).

De qualquer forma, compartilhe este texto e essa imagem, se possível. Desde já agradeço muito.
(Plácido Mendes)

Mais fotos dela em www.instagram.com/nunosthecat



19/09/2018

The Real Folk Blues

23:57


Esta música traz uma história triste: há quase exatamente um ano, soube do falecimento de uma ex-colega de colégio, dos tempos de Ensino Médio. Ela era uma dessas meninas bonitas que acabam chamando a atenção de toda a gurizada. Era mais nova. Enquanto eu fazia o 1º ano, ela estava talvez na sétima série (hoje 8º Ano). Se falei com ela duas vezes na vida toda foi muito, portanto, não era minha amiga nem nada do tipo, mas me lembro dela adolescente e a reencontrei, já adulta, quando trabalhava nos projetos do SESC. Vi que tinha se tornado enfermeira e uma competente chefe de alguma coisa na área de saúde, no poder público municipal. Continuamos distantes, como se nunca tivéssemos nos visto. Constantemente me esbarro com alguém cuja última vez em que vi, ainda éramos adolescentes ou mesmo crianças.

Mas sua morte, aos 32 anos, mexeu bastante comigo: eu custei a acreditar que aquela pessoa que eu conhecia há tanto tempo havia partido tão cedo. Na verdade, nem sei se eu consegui assimilar isso ainda. Como pode? Às vezes parece que, mesmo sabendo do fim inevitável, guardamos alguma distância disso, como se vivêssemos num filme ou coisa parecida. Tudo é finito, mas quando finalmente chega esse fim, parece que não o estávamos esperando. Por sinal, apesar dos meus 35 anos, já tive a experiência de ter amigos e conhecidos mortos prematuramente algumas vezes. Já se foram colegas de escola, de Tiro-de-Guerra, de universidade, de banda... Todos da minha idade ou mais novos. Será que isso é normal com todos ou essa fase só chega na velhice?

Como falei, isso foi no ano passado, neste mesmo mês de setembro, coincidentemente. Fiquei um bom tempo com isso na cabeça. É um verdadeiro choque de realidade. Tive de desabafar de alguma forma. Foi quando ouvi, mais uma vez, a trilha de Cowboy Bebop, o fantástico anime com a melhor trilha sonora que já conheci. Suas músicas já me eram bastante familiares mas, desta vez, a bela The Real Folk Blues me tocou de um jeito diferente: senti uma profunda angústia ao escutá-la nesse momento de inquietação. Como ela é triste... E, engraçado, ela possui uma versão chamada See You Space Cowboy, que é tocada justamente num momento de morte na trama. Parece ter sido feita para aquele momento.

Voltando ao desabafo, senti vontade de aprender a tocá-la, e inseri-la em meu repertório. Mas aconteceu algo maior: eu comecei a escrever uma versão em português, de acordo com as mil coisas que eu estava pensando: "por que estamos aqui? Qual a lógica disso tudo?" Pensei em como as pessoas se apegam a conceitos abstratos para tentar lidar com esses traumas. A ideia de "a missão acabou" conforta, mas o mundo é algo tão maluco e absurdo, que eu não me espantaria se descobrisse que tudo não passa mesmo de uma série de acidentes cósmicos que resultaram na criação da vida... Afinal de contas, o que viemos fazer aqui? De que serve esse breve momento em que nós, essa farofa de poeira que, sabe-se lá como, ganhou vida, temos o privilégio de usufruir? Existe destino ou a vida é um livro aberto e vazio esperando para ser escrito por nós?

Coloquei tudo isso dentro da métrica da música. Mas, como sou muito autocrítico, decidi deixar o arquivo guardado, e depois que o sentimento passasse, ler a letra com a mente fresca e decidir se foi ou não um bom texto. Coincidentemente (como disse acima), exatamente um ano depois, vi a pasta e decidi abrir o arquivo. Caramba! Não sei se a letra ficou boa, mas que ela traduz perfeitamente o sentimento triste de quando foi escrita, isso faz! Não mudei nada. Talvez um trechinho ou outro acabe sofrendo alguma alteração, mas decidi colocar em meu repertório, talvez gravá-la aqui mesmo, em casa. Música é isso: expressão de sentimentos. Essa foi uma letra especial, escrita pensando numa pessoa que me despertou alguns sentimentos que talvez nunca mais esquecerei. Aqui vai ela, seguida das duas versões em japonês. Dá até para acompanhar a letra enquanto se escuta a música:


THE REAL FOLK BLUES
Yūho Iwasato (versão: I. Malforea)

Cedo ela se foi / e ninguém vai explicar
O que é justo, merecido ou o que / só tinha de ser
E qual sentido foi / o de terminar
Uma história bem no meio e o fim / ainda a escrever

O fim da sua missão / pra se confortar
Se não há o que ser feito aqui / deve-se sair
Não há compreensão: resta aceitar
E acreditar que a paz está / bem longe daqui

Acreditar / que há um porquê / pra quando a dor aparecer

The real folk blues
No mundo: é tão frágil e precioso estar aqui
Deixando, ao sair, sua marca
Mesmo se o vento a apagar e ninguém a vir
E que motivo ter? Onde vai parar?

Ou tudo pode ser / não tão belo assim
Um presente lhe é dado e você / usa como quer
Uma chance de ter / o simples viver
Ter o raro e improvável dom / de todo o mundo ver

“Vá até lá. Entre no trem. O tempo é curto. Escolha bem”

The real folk blues
No mundo: é tão frágil e precioso estar aqui
Seu livro está vazio / e a história
É você quem vai contar

REFRÃO 1




Qualquer dia desse, posto a minha versão, gravada. Claro que este post também tem a função de proteger minha autoria.

A Política (André Comte-Sponville) - Resenha

15:52

A obra Apresentação da Filosofia (2002), de autoria do filósofo francês André Comte-Sponville, é voltada ao público leigo e interessado em conhecer a vastidão da filosofia, como o próprio título denuncia. Fruto de uma série de textos introdutórios, “Cadernos de Filosofia”, voltados inicialmente a adolescentes (os quais, segundo o autor, devem ser orientados ao exercitarem o filosofar), traz, em doze capítulos, abordagens conceituais acerca de temas básicos, como a moral, a morte, a liberdade, Deus, o tempo e o próprio homem. Comte-Sponville publicou vasta obra desde a década de 80, sendo a ele atribuídos termos como materialista, racionalista e humanista ao se definir sua inclinação filosófica. 

O capítulo analisado, A Política (2), faz uma interessante abordagem introdutória sobre o conceito de política, chamando a atenção para certos lugares-comuns, como a não-necessidade de política, a unanimidade negativa sobre os agentes políticos e, com isso, a própria noção de sociedade e Estado, desconstruindo tais máximas, encontradas facilmente em quaisquer ambientes sociais. Afirma ser a política um importante elemento “para que os conflitos de interesses se resolvam sem recurso à violência” (p. 27) e a existência do Estado “não porque os homens são bons ou justos, mas porque não são” (idem). Dessa forma, explica ser, aquele que não se interessa por ela, na verdade não ser interessado em nada.

Comte-Sponville segue levantando a política como a “arte de viver juntos, num mesmo Estado (…), com pessoas que não escolhemos” (p. 28) buscando a harmonia. Portanto, há de se supor a existência de uma entidade mediadora de conflitos e criadora de regras universais dentro dos limites de sua soberania, o Estado. A obediência a ele, segundo o autor, se dá não para que o cidadão seja diminuído e oprimido, mas para que o estado legitime e proteja sua liberdade, por isso a obediência a ele é legítima e necessária. Nesse ponto, a política já se mostra indispensável, já que é justamente ela que tornará possível a coexistência dos diferentes pontos de vista acerca dessa sociedade, sem que seja necessário o emprego da lei do mais forte, típica do estado de natureza, apontado por Hobbes.

O autor traz uma forma bastante clara de situar a política: ela nasce do conflito entre pessoas, da discordância. Quando há consensos acerca de quaisquer temas, não há política, cujo objetivo é reunir as pessoas através justamente da oposição de pontos de vista. Por isso, afirma: “engana-se quem anuncia o fim da política: seria o fim da humanidade, o fim da liberdade, o fim da história, que, ao contrário, só podem (…) continuar no conflito aceito e superado.” (p. 29). Tal raciocínio a coloca exatamente no ponto oposto ao estado natural, caracterizando-se como elemento essencial no conceito de civilização, onde o homem nega a natureza, abre mão da liberdade plena e, para o bem e conveniência coletivos, se submete a certo conjunto de regras para que, em conjunto, sobreviva com segurança e conforto.

Nesse sentido, é um grande equívoco um membro dessa sociedade simplesmente virar as costas à política. Como reivindicar melhorias e cobrar medidas justas sem fazer uso dela? Não haveria cidadania sem política, e sim a simples e dura lei do mais forte, citada anteriormente. E quando os agentes políticos não cumprem com o que deles se espera, é que o cidadão deve exercê-la com veemência. Um ser apolítico na verdade é uma espécie de suicida social, que abre mão de seus próprios interesses.

Comte-Sponville também enfatiza a necessidade de se ter bem clara em mente os limites da política, não confundindo-a, por exemplo com a moral, que carrega em si virtudes como a generosidade. A política não trata de bondade, e sim de conciliar de forma inteligente os vários egoísmos humanos de forma que o coletivo tire proveito disso e cresça. “Você poderia preferir que a moral bastasse, que a humanidade bastasse: você poderia preferir que a política não fosse necessária. Mas estaria se enganando sobre a história e se mentindo sobre nós mesmos.” (p. 31)

Importante destacar a diferenciação, pelo autor, de solidariedade, presente na política, de generosidade. A primeira pressupõe a defesa dos interesses do outro, no sentido de estes também serem os meus, num sentimento de troca, onde o coletivo se beneficia. Já a generosidade pressupõe a defesa dos interesses do outro, ainda que o eu não os compartilhe, num sentimento de doação. Segundo o texto, solidariedade é uma virtude política, enquanto generosidade é uma virtude moral, altruísta, que não deve ser confundida com política.

Nesse sentido, uma eleição não é, em regra, um confronto maniqueísta, mas uma oposição de grupos e ideias, para a manutenção do Estado, mas não necessariamente ligado a conceitos morais, que trazem conceitos. A política é independente, pois traz soluções para problemas. Os profissionais da política, segundo o autor, ao mesmo tempo em que devem ser celebrados, devem ser vigiados. A vigilância, aliás, é o ofício de cada cidadão, sem que se torne sinônimo de ridicularização, do agente e do sistema. Ser vigilante é, ao mesmo tempo, nem crer cegamente, nem condenar sem critérios concretos.

Por fim, Comte-Sponville defende que a sociedade humana seja refeita constantemente, ainda que não totalmente, seguindo as mudanças do mundo, para que se construa a história não confiando apenas no destino. Este é uma bela amostra de como questões fundamentais acerca da sociedade humana podem ser abordadas de forma simples, mas não pobre, a leigos e jovens em geral. É um texto que deve ser visitado periodicamente, mesmo por iniciados, para que não se perca de vista a essência da política, devido a paixões, conceitos e “ondas coletivas”.


COMTE-SPONVILLE, André. Apresentação da filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2002. P. 27-36.