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12/08/2018

"Happy" (2011) - Resenha

23:36

"Happy" (EUA, 2011), disponível na Netflix, trata de um tema caro e comum a todos: a felicidade. Tão comum, aliás, que se tornou "parte do cenário" e, embora todos a busquem, raras vezes paramos para refletir sobre ela. Afinal, o que é a felicidade? É um conceito universal? Relativo? Utópico? Alcançável? Para tal reflexão, a equipe do diretor Roko Belic percorreu diversas partes do mundo, incluindo o Brasil, para conhecer histórias de diferentes pessoas, com as mais diversas culturas e contextos sociais, mas com a ideia de felicidade como elo de ligação. Também temos, eventualmente, a palavra de cientistas que buscam descobrir, metodicamente, como reagimos e lidamos com tal conceito.

Um dado interessante trazido pelos pesquisadores é que, desconstruindo a máxima dinheiro não traz felicidade, os bens materiais podem sim trazê-la, mas quando fornecem as condições mínimas de sobrevivência sem privações básicas: é indiscutível que o dinheiro pode sim trazer felicidade a pessoas em condição de vida miserável, porém, o outro lado da moeda é: uma vez alcançado o patamar de vida digna, o dinheiro passa a ser cada vez menos decisivo na construção de um estado de felicidade. Na verdade, quando em excesso (como tudo em excesso, aliás), pode até mesmo afastar-nos dela. Daí o motivo de pessoas com vidas extremamente simples podem ser tão ou mais felizes quanto milionários em vidas luxuosas.

O filme traz diversos exemplos de pessoas que se sentem plenas ao viver de forma simples e que superaram sérios traumas, o que inspira a ideia de que é preciso refletir sobre qual o melhor ponto de vista adotar, de acordo com seu próprio contexto, afinal, a felicidade não é alcançada com fórmulas gerais, e sim com experiências individuais, embora haja formas de voltar-se a ela com mais eficiência. Assistir ao próprio filme, aliás, já pode ser considerado uma, ao se mostrar uma concreta reflexão sobre o tema. Como afirma um dos especialistas, a felicidade deveria ser encarada como uma habilidade, onde quanto mais se exercita, mais se aperfeiçoa. E tudo começa com o simples pensar (meditar, num dos exemplos mostrados) no vídeo.

O ser humano, não é novidade, é extremamente complexo: um ser coletivo e egoísta ao mesmo tempo, que busca ideais enquanto os obstrui. Talvez isso se dê pelo processo de negação (inconsciente ou não) à sua condição de parte da natureza, iniciado quando do início do sedentarismo, milênios atrás. Negamos mas, como qualquer animal, temos nossos instintos. E um ser social, ainda que com crescente tendência individualista, não poderia se sentir completo senão ao perceber-se integrado a um conjunto. É fácil associar a solidão a casos de depressão e baixa autoestima. A necessidade por integração mostra-se gritante no mundo das redes sociais, onde cada um age como uma espécie de microcelebridade, onde seguidores são de extrema importância, se tornando, inclusive, um lucrativo negócio para muitos.

O conceito americano de vencedor X perdedor é o pai de um estado de competição social sufocante, onde a busca pela excelência, dentro de certos padrões (beleza, status, condição financeira, popularidade, etc) torna-se razão de viver para muitíssimos. Os que não conseguem alcançar certos níveis dentro desses padrões são, desde muito cedo, rejeitados e afastados, através do bullying, dentre outros. Na verdade, nada mais é do que uma versão sofisticada das disputas de poder em qualquer matilha, manada ou bando na natureza. A essência é a mesma: inserir-se nos patamares de destaque. A felicidade seria simplesmente um obedecer de instinto

Mas, a humanidade, ao negar sua natureza para dar lugar a civilidade, criou novos padrões e realidades. Estamos todos conectados em nossa gigantesca matilha, e não é mais preciso ser o mais forte e ameaçador para sobreviver. Hoje há espaço para todo tipo de pessoa viver bem... Desde que desapegue de velhos conceitos. O quão REALMENTE IMPORTANTE é, no contexto atual, ter a conta bancária (ou o perfil na rede social) com pomposos números, considerando-se que o básico (a não-miséria) foi alcançado? Por que usar o outro como referência, ao invés de fechar os olhos e perguntar a si mesmo(a) o que o(a) satisfaz?

Voltando aos instintos animais de todos nós, parece óbvio a qualquer um que manter contato com outras pessoas ajuda a ser mais feliz. Somos civilizados, mas ainda somos os animais sociais de sempre. É preciso sim exercitar a felicidade como quem exercita uma habilidade. Para isso, o esporte continua sendo uma ferramenta eficientíssima: praticando esportes, ainda que numa simples caminhada pela cidade, temos contato com o outro, conhecemos nossos próprios limites, traçamos metas personalizadas e nos sentimos bem quando as superamos. Não é por acaso que casos de depressão e suicídio estão ligadas a pessoas que se sentem sozinhas e deslocadas do "bando", sendo isso, algo perfeitamente contornável, com um pouco de boa vontade.

Países/comunidades como o Butão, citado no documentário, deram um importante passo em direção de uma melhor qualidade de vida, ao adotar o conceito de Felicidade Interna Bruta, abrindo mão de atitudes esperadas na sociedade contemporânea, marcada pela forte competitividade, na direção do crescimento econômico, como já se conhece bem. É preciso ter espaços onde as pessoas se sintam acolhidas e parte de um todo (incluindo a natureza). É preciso combater o workaholicismo que nos força a dedicar a maior parte do tempo e energia ao trabalho e dar as costas à família, importante elemento de segurança e razão de ser desde sempre. Temos os casos de karoshi como exemplo extremo, para visualizar o futuro de toda a humanidade, se não prestar atenção na direção em que está tomando.

Inevitável, para mim, não lembrar, dentre várias, da música Ouro de Tolo, do mestre Raul Seixas. Sua crítica à sociedade moderna e seu modelo universal, em contrapartida ao próprio conceito de felicidade (Eu devia estar contente, porque eu tenho um emprego, sou o dito cidadão respeitável e ganho quatro mil cruzeiros por mês), poderia muito bem ser a trilha sonora do documentário. Ainda citando o rei do rock brasileiro, em Quando Acabar o Maluco Sou Eu (Seu Zé, preocupado, anda numa de horror, pois falta um carimbo no seu título de eleitor: quando acabar, o maluco sou eu). Raul passou toda a vida denunciando a cegueira da humanidade em buscar os ideais universais, que não se sabe quem estabeleceu, sufocando o eu interior de cada um, numa caminhada suicida e patética rumo ao nada.

Experimentei um pouco disso em minha carreira musical. Para conquistar um lugar ao sol (o mercado fonográfico) é preciso se fazer conhecer, planejar ações, estratégias e produzir numa velocidade cada vez maior, num mundo onde qualquer coisa já se torna velha em alguns dias. A fadiga foi inevitável e, quando percebi, havia me tornado um escravo do marketing, das redes sociais, dos planejamentos e das frustrações, sem o direito de respirar ou dizer "não" a tudo isso, a ponto de perceber que, mesmo a atividade que alguém mais ame, pode se tornar insuportável quando se busca ideais gerais e não pessoais. É mesmo preciso seguir a louca e incontrolável correnteza ou é possível encontrar outro rio, mais amigável (e identificável) para navegar?

Enfim, este é um documentário necessário a todos. Pode muito bem ser o primeiro passo rumo ao exercício da própria felicidade; o pensar consciente a respeito; o início do exercício. Num universo de pessoas tão vasto, há espaço para todos: não é preciso perseguir cegamente o patamar de vencedor, pois vencer é algo com vários e profundos significados. Cada um é capaz de alcançar sua própria vitória, em seu próprio ritmo, e em sua própria direção. Até que se prove o contrário, só se passa por aqui uma vez, e não é inteligente desperdiçar essa chance com pensamentos e objetivos inúteis, que nos privam de aproveitar esta valiosa oportunidade de estadia. Seja feliz... Do seu próprio jeito!


20/07/2018

Charity and Mercy (lyric video) - bastidores

13:19
Cena do vídeo, num show de 2016
Historiador que sou, e produtor da Distintivo Blue, sempre me preocupei em registrar ao máximo os principais momentos da banda. Durante muito tempo não tive um equipamento decente, então tratava de usar o que estava à mão, geralmente um celular ou uma câmera digital fuleira. Mas o REC estava sempre apertado. Isso começou na Tomarock, com uma câmera fotográfica ainda analógica, e na The New Old Jam, já com uma digital (mas fraquíssima) e um gravadorzinho de mini-k7 que levava pra qualquer canto e tinha uma qualidade de captação sofrível. Na Distintivo Blue só depois de muito tempo consegui um incrível e maravilhoso iPad 3, onde comecei a pensar na possibilidade de fazer vídeos, mas ainda faltava um PC decente, então nem liguei muito. Resumindo, hoje tenho um bom computador e câmeras decentes, além do meu amado gravador Zoom H4n, tão sonhado.

Só a partir de 2014 pude pensar em vídeos melhores, com esse iPad. Coincidentemente, foi quando a banda retornou de um hiato de 1 ano, logo após a gravação de 2012, Miopia. Por isso, apenas vídeos a partir desse ano (salvo uma exceção de 2011, numa tomada-referência à capa do EP Riffs, Shuffles, Rock N' Roll, de 2012) foram selecionadas para o lyric video de Charity and Mercy, lançado recentemente. Com a banda em mais um hiato, pensei: "que enorme desperdício ter tanto material interessante guardado e não usar em nada!". Então, como sempre faço, fui maquinando aos poucos, de forma quase inconsciente, o novo vídeo da DB. A escolha da música foi quase óbvia: é uma faixa que eu gosto, divertida, e ainda tem uma letra cheia de referências a nós mesmos.

Só que nunca estudei a fundo edição de vídeo. Primeiro por demorar demais para ter um computador que aguentasse fazer edição, e depois, por não ter lá paciência suficiente pra me debruçar sobre isso: ser músico independente demanda que façamos tudo, da poesia à burocracia, e edição demanda muito, mas muito tempo. Aprendi um básico do básico, de acordo com o surgimento das necessidades e assim também foi com o Corel, o site, a zine, tudo. Não tenho a menor noção de animação, então o lyric video deveria ser bem simples, mas com meu estilo: detalhista, mas limpo. 

Foram selecionados nada menos que 116 vídeos que busquei cuidadosamente nos diversos HDs com material da DB. A pasta com essa seleção pesa 76GB. A maioria é de vídeos curtos, feitos com tablet, celular, câmera DSLR e câmera de ação. Alguns, como os da série CCCJL Sessions são originalmente em preto e branco, o que me fez ter dificuldade em pensar como padronizar todos. Fiz uma experiência com o preto e branco e decidi manter o vídeo inteiro assim. Perdi muitos detalhes, mas ganhei tempo ao não ter que me debruçar sobre cada vídeo tentando fazer algo que eu ainda não sei fazer.

Por sorte, eu tinha uma gravação da banda tocando a própria música numa festa fechada, e Rodrigo ainda puxou a introdução mais ou menos no mesmo beat da versão gravada. Foi a introdução do vídeo, única parte em que um músico está sincronizado com o que há no áudio. Funcionou para o que eu queria. Como a banda estava praticamente morta, só comigo como integrante, ficaria estranho e pobre só ter eu aparecendo, então surgiu aí a ideia de homenagear o grupo, mostrando todos os que passaram por ele desde 2013, incluindo parceiros, como o cineasta Diego Eleutério (do clipe de Ame a Solidão) e minha namorada, Naiane Nunes (que aparece no mesmo clipe). 

E temos bichos! E crianças! Encontrei uma cena em que um cachorro se aproximou de mim no palco, um vídeo de uma aranha "lanchando", que havia filmado aqui em casa, provavelmente no ano passado, uma borboleta idem, minha gata Nunos (único gravado em 2018) desfilando no muro e uma ossada de tiranossauro, gravada por meus pais no Museu de História Natural, em Nova Iorque. Grande achado foi o de uma menina dançando em frente ao tablet num dos ensaios abertos da banda, em 2014. Deu o tom divertido que eu precisava. Geralmente as crianças adoram os shows da DB, por sinal. Aproveitei também algumas tomadas externas que não entraram no clipe de Ame a Solidão.

Usei vários vídeos que não entraram nos clipes de Ame a Solidão e Na Trilha do Blues, o primeiro com imagens de Filipe Sobral e Diego Eleutério e o segundo por Thomaz Oliveira e Date Sena. Fica a dica para os músicos independentes: quando for produzir algo, peça todos os arquivos aos seus parceiros. Eles sempre terão utilidade. Tenho tudo aqui guardado, e o mesmo vale para as músicas gravadas em estúdio. Mas, a maioria dos vídeos foi feita por mim mesmo, posicionando a câmera num canto e partindo pra meu posto no "cenário". Faça você mesmo!

Levei quase uma semana desde o momento em que tomei a iniciativa de procurar o material até o lançamento. Decidi fazer um pouquinho por dia, sem pressa e sem me cansar. Criei as letras no Corel, e dividi a música em três partes: fiz uma por dia, sendo que, no último, a empolgação me fez finalizar tudo de uma vez. O resultado me satisfez. Foi exatamente o que eu havia imaginado, ou talvez melhor. A música ajudou bastante. Ao todo foram 73 arquivos de imagem para criar desde o logotipo inicial, as letras e o logotipo final. Ainda pretendo lançar uma versão colorida, talvez com a versão sem voz da música (álbum Shut Up!, de 2017), só por curiosidade mesmo.

Enfim, esta foi uma forma de homenagear a banda e os fãs. Ainda há muuuuuito material guardado e inédito e, aos poucos, penso em formas de publicar. A própria banda não deixou de existir: ainda há várias músicas prontas e não-gravadas e várias incompletas. Quem sabe este não foi o pontapé inicial de um retorno? (mistério!)




19/07/2018

Charity and Mercy - Lyric Video

14:34

Uma das imagens do clipe, tirada no Vale do Capão (Chapada Diamantina), durante o Encontro de Blues, em 2014.
Lançada pela primeira vez em formato acústico, no EP "Orgânico" (2014), "Charity and Mercy" foi lançada totalmente reformulada no álbum "Todos os Dias, Vol. 1" (2015). Composta pelo guitarrista Camilo Oliveira e arranjada por toda a banda, faz uma ode à banda em uma letra repleta de referências a outras canções e piadas internas dos Joes.

2015 foi um ano onde a Distintivo Blue assumiu mais abertamente suas influências do country, bluegrass e southern rock, tornando sua sonoridade mais solta e divertida. Ao vivo também deixou seu lado psicodélico vir à tona, com bastante improviso. Charity and Mercy já nasceu como um grande clássico.

Em 2018 resolvemos abrir nosso enorme arquivo de imagens e fazer esta homenagem a todos os que passaram pelo grupo após os "early days", ou seja, a partir de 2013. Neste lyric video produzido pelo vocalista I. Malforea, aparecem membros, ex-membros e parceiros, em imagens de 2011 a 2017, celebrando o blues autoral brasileiro. O vídeo está disponível no YouTube, Facebook e Vimeo. Divirta-se, como nós nos divertimos!


FICHA TÉCNICA
Título: Charity and Mercy
Composição: Camilo Oliveira
Arranjos: Distintivo Blue
Lançada no álbum "Todos os Dias, Vol. 1" (2015)
Produzido no inverno de 2018, por I. Malforea
Imagens: acervo Distintivo Blue


Ouça toda a nossa discografia no Spotify, Deezer, Apple Music, ONErpm, CDBaby, YouTube e demais plataformas de música.


08/07/2018

Revivendo o Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima

22:52
O primeiro concerto aberto no CCCJL em 2018. Plácido Mendes (I. Malforea) 2018
Hoje foi um dia mais que especial para os conquistenses, incluindo a mim: foi o primeiro concerto aberto ao público no recém-reformado Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima. Inaugurado na segunda metade dos anos 80, funcionou, aos trancos e barrancos, até 2013, quando teve sua sala principal interditada, sem nunca haver sofrido alguma reforma significativa. Consideravelmente desconfortável e antiquada, passou cinco anos praticamente inativa, já que não era possível qualquer atividade com plateia. Devo lembrar que, nesse período, este importantíssimo patrimônio foi esquecido, pelo Estado, pela comunidade e, inacreditavelmente, pelos próprios artistas locais. A equipe de funcionários foi reduzida, mas foram esses os grandes heróis que impediram a total degradação do nosso valioso CCCJL.

Digo com a emoção de quem viu bem de perto a triste realidade, cheia de promessas vazias de um momento como o de agora: passei quase dois anos produzindo arte na sala interditada (ao contrário do que muitíssimos pensavam, o CCCJL não estava totalmente inativo. Nunca esteve, por sinal). Foram inúmeros ensaios, videoclipe, séries de vídeos (não por acaso chamadas CCCJL Sessions, com nossas denúncias à situação de descaso e abandono), entrevistas, reuniões, sessões de foto e muitas boas ideias enquanto, vez por outra, escorregava nas bolinhas de cupim que caíam do teto. Nesse tempo pude entender o quanto devemos deixar de considerar o patrimônio público como "de ninguém", para assumi-lo como "nosso". Sinceramente, fiquei bastante surpreso quando soube que a reforma finalmente sairia. Fui pessimista por muito tempo.

Pois hoje fui conferir como estava meu amigo de infância, com o concerto da Orquestra Conquista Sinfônica, sob a batuta do maestro João Omar. A emoção começou logo na entrada: há quanto tempo eu não entrava numa fila ali? o grupo de pessoas logo à minha frente falava sobre o também icônico, mas finado, Cine Madrigal, e de sua quilométrica fila para Titanic. O baleiro de sempre estava lá e tudo isso me fez pensar em como o conquistense simplesmente se esqueceu do que é juntar a família ou os amigos e passar uma tarde num lugar fechado que não seja o barulhento shopping ou se reunir para um bom evento musical que não o "muvuquento" Festival de Inverno. Falo de um lugar criado para tal propósito, e não de improvisos em áreas destinadas a palestras. Perdemos nossas referências! Na terceira maior cidade do estado isso não pode acontecer. A cidade não é só dos baladeiros: a cultura é de todos, independente da idade, e é preciso ter opções reais.

Todo esse turbilhão de pensamentos só se reforçou à medida em que subia as escadas para a sala. Havia me habituado a entrar apenas pelos bastidores, e isso me fez voltar no tempo. Minha lembrança mais longínqua do Centro de Cultura é de uma peça da Turma da Mônica, em algum ponto dos anos 80, que fui com a escola. Lembrei de várias vezes em que passei por ali: Canta Bahia, Duetos da TV Sudoeste, MPBlues, Xangai, Belchior e até a manjadíssima A Bofetada, que parecia vir a Conquista todo fim de semana. Eu tinha o sonho de cantar naquele palco. E cantei, no Festival de Música da Bahia, em 2012. Nem imaginava que passaria tanto tempo nele, mas sempre olhando a arquibancada vazia e com cadeiras faltando.

Decidi me sentar no alto para contemplar ambas as atrações: a orquestra e o próprio local. Como conheço cada pedacinho da sala principal, reparei em tudo: as novas poltronas, o piso, o batente para o público de pé, a nova cortina, as novas caixas de som e, claro, o teto, de onde chovia "bolinhas de cupim" e sempre rendia algum lamento por aquilo. Com as novas poltronas notei o quão pequeno é nosso teatro. Como pode, em 2018, a grande Vitória da Conquista não ter uma sala de teatro realmente moderna e adequada? É sempre bom lembrar, e o maestro lembrou, que o CCCJL funcionando é uma vitória, mas ele não deve ser o ÚNICO "equipamento" da cidade: por onde anda a iniciativa privada? Por que não construir um centro de cultura privado por aqui? Não parei de pensar em coisas assim da chegada até a saída.

Desnecessário falar da altíssima qualidade da orquestra, que também passou bastante tempo ensaiando no próprio lugar em que se apresentou. O repertório também parece ter sido pensado de forma a reintroduzir o público conquistense a esse universo: passamos por Elomar, Geraldo Azevedo, Caetano Veloso, Roberto Carlos, e até mesmo o Ira!, finalizando com Luiz Gonzaga, em belíssimas versões sinfônicas. Antes, a fala do diretor do espaço e radialista/professor/músico Elton Becker, que anunciou tornar a orquestra residente no CCCJL, convidando-a, diante do público, a se apresentar ao menos uma vez por mês, no mesmo horário, nas tardes de domingo. Certamente estaremos lá, não?

Devemos voltar a olhar o CCCJL como um espaço onde sempre se sai alguém melhor do que quando entrou. Foi exatamente essa a sensação que tive, e lembrei de que era isso que eu sentia sempre: eu sempre saía de lá com mais vivência, conhecimento e "bagagem". Esse é o papel dos centros de cultura, onde quer que estejam. A cultura é a alma de um povo, e deve ser fomentada. Conquista reaprenderá, espero, a incorporar isso ao seu imaginário. Percebi que muitos nem sequer sabem como lidar com o ambiente da sala de teatro, com seus barulhentos celulares, converseiros paralelos e crianças sem noção de limites. Alguns nem sequer pensam em fechar a porta quando saem da sala, expondo todo o ruído externo. Isso é triste, pois reflete a falta que o Centro de Cultura fez até mesmo na educação doméstica. O conquistense não pode ser privado disso. Não mais. 

Enxerguemos como "nosso", preservemos, frequentemos, e voltemos a amar o nosso Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima. Ele nunca foi apenas "um prédio estranho e fechado em frente ao hipermercado". Ali está um elemento essencial à vida de qualquer grande (e não me refiro a tamanho) cidade. Quando passar em frente, entre! Procure saber o que está/estará em cartaz. Conheça todas as salas, descubra novas possibilidades. Depende de todos devolver vida ao espaço, que está longe de ser o ideal, mas também longe de ser pequeno (também não me refiro a tamanho) demais para nós.