[Destaques][carousel][6]

08/07/2018

Revivendo o Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima

22:52
O primeiro concerto aberto no CCCJL em 2018. Plácido Mendes (I. Malforea) 2018
Hoje foi um dia mais que especial para os conquistenses, incluindo a mim: foi o primeiro concerto aberto ao público no recém-reformado Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima. Inaugurado na segunda metade dos anos 80, funcionou, aos trancos e barrancos, até 2013, quando teve sua sala principal interditada, sem nunca haver sofrido alguma reforma significativa. Consideravelmente desconfortável e antiquada, passou cinco anos praticamente inativa, já que não era possível qualquer atividade com plateia. Devo lembrar que, nesse período, este importantíssimo patrimônio foi esquecido, pelo Estado, pela comunidade e, inacreditavelmente, pelos próprios artistas locais. A equipe de funcionários foi reduzida, mas foram esses os grandes heróis que impediram a total degradação do nosso valioso CCCJL.

Digo com a emoção de quem viu bem de perto a triste realidade, cheia de promessas vazias de um momento como o de agora: passei quase dois anos produzindo arte na sala interditada (ao contrário do que muitíssimos pensavam, o CCCJL não estava totalmente inativo. Nunca esteve, por sinal). Foram inúmeros ensaios, videoclipe, séries de vídeos (não por acaso chamadas CCCJL Sessions, com nossas denúncias à situação de descaso e abandono), entrevistas, reuniões, sessões de foto e muitas boas ideias enquanto, vez por outra, escorregava nas bolinhas de cupim que caíam do teto. Nesse tempo pude entender o quanto devemos deixar de considerar o patrimônio público como "de ninguém", para assumi-lo como "nosso". Sinceramente, fiquei bastante surpreso quando soube que a reforma finalmente sairia. Fui pessimista por muito tempo.

Pois hoje fui conferir como estava meu amigo de infância, com o concerto da Orquestra Conquista Sinfônica, sob a batuta do maestro João Omar. A emoção começou logo na entrada: há quanto tempo eu não entrava numa fila ali? o grupo de pessoas logo à minha frente falava sobre o também icônico, mas finado, Cine Madrigal, e de sua quilométrica fila para Titanic. O baleiro de sempre estava lá e tudo isso me fez pensar em como o conquistense simplesmente se esqueceu do que é juntar a família ou os amigos e passar uma tarde num lugar fechado que não seja o barulhento shopping ou se reunir para um bom evento musical que não o "muvuquento" Festival de Inverno. Falo de um lugar criado para tal propósito, e não de improvisos em áreas destinadas a palestras. Perdemos nossas referências! Na terceira maior cidade do estado isso não pode acontecer. A cidade não é só dos baladeiros: a cultura é de todos, independente da idade, e é preciso ter opções reais.

Todo esse turbilhão de pensamentos só se reforçou à medida em que subia as escadas para a sala. Havia me habituado a entrar apenas pelos bastidores, e isso me fez voltar no tempo. Minha lembrança mais longínqua do Centro de Cultura é de uma peça da Turma da Mônica, em algum ponto dos anos 80, que fui com a escola. Lembrei de várias vezes em que passei por ali: Canta Bahia, Duetos da TV Sudoeste, MPBlues, Xangai, Belchior e até a manjadíssima A Bofetada, que parecia vir a Conquista todo fim de semana. Eu tinha o sonho de cantar naquele palco. E cantei, no Festival de Música da Bahia, em 2012. Nem imaginava que passaria tanto tempo nele, mas sempre olhando a arquibancada vazia e com cadeiras faltando.

Decidi me sentar no alto para contemplar ambas as atrações: a orquestra e o próprio local. Como conheço cada pedacinho da sala principal, reparei em tudo: as novas poltronas, o piso, o batente para o público de pé, a nova cortina, as novas caixas de som e, claro, o teto, de onde chovia "bolinhas de cupim" e sempre rendia algum lamento por aquilo. Com as novas poltronas notei o quão pequeno é nosso teatro. Como pode, em 2018, a grande Vitória da Conquista não ter uma sala de teatro realmente moderna e adequada? É sempre bom lembrar, e o maestro lembrou, que o CCCJL funcionando é uma vitória, mas ele não deve ser o ÚNICO "equipamento" da cidade: por onde anda a iniciativa privada? Por que não construir um centro de cultura privado por aqui? Não parei de pensar em coisas assim da chegada até a saída.

Desnecessário falar da altíssima qualidade da orquestra, que também passou bastante tempo ensaiando no próprio lugar em que se apresentou. O repertório também parece ter sido pensado de forma a reintroduzir o público conquistense a esse universo: passamos por Elomar, Geraldo Azevedo, Caetano Veloso, Roberto Carlos, e até mesmo o Ira!, finalizando com Luiz Gonzaga, em belíssimas versões sinfônicas. Antes, a fala do diretor do espaço e radialista/professor/músico Elton Becker, que anunciou tornar a orquestra residente no CCCJL, convidando-a, diante do público, a se apresentar ao menos uma vez por mês, no mesmo horário, nas tardes de domingo. Certamente estaremos lá, não?

Devemos voltar a olhar o CCCJL como um espaço onde sempre se sai alguém melhor do que quando entrou. Foi exatamente essa a sensação que tive, e lembrei de que era isso que eu sentia sempre: eu sempre saía de lá com mais vivência, conhecimento e "bagagem". Esse é o papel dos centros de cultura, onde quer que estejam. A cultura é a alma de um povo, e deve ser fomentada. Conquista reaprenderá, espero, a incorporar isso ao seu imaginário. Percebi que muitos nem sequer sabem como lidar com o ambiente da sala de teatro, com seus barulhentos celulares, converseiros paralelos e crianças sem noção de limites. Alguns nem sequer pensam em fechar a porta quando saem da sala, expondo todo o ruído externo. Isso é triste, pois reflete a falta que o Centro de Cultura fez até mesmo na educação doméstica. O conquistense não pode ser privado disso. Não mais. 

Enxerguemos como "nosso", preservemos, frequentemos, e voltemos a amar o nosso Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima. Ele nunca foi apenas "um prédio estranho e fechado em frente ao hipermercado". Ali está um elemento essencial à vida de qualquer grande (e não me refiro a tamanho) cidade. Quando passar em frente, entre! Procure saber o que está/estará em cartaz. Conheça todas as salas, descubra novas possibilidades. Depende de todos devolver vida ao espaço, que está longe de ser o ideal, mas também longe de ser pequeno (também não me refiro a tamanho) demais para nós.



11/06/2018

Senta, que lá vem história... Os roteiros da Turma da Mônica

12:11
Algumas das cartas, envelopes e contratos da época
O ano era 1998 (ou 97, sei lá): eu tinha entre 14 e 15 anos e estava maravilhado com meus primeiros contatos com a internet (discada), num PC com Windows 95 (aquele do puma na área de trabalho), recém-comprado por meus pais. Nessa época não havia muito o que se ver, apenas explorar aquele negócio que se falava tanto nos telejornais. Passei a infância lendo Turma da Mônica, Disney, Ely Barbosa e alguns outros. Tinha centenas de revistas, desde muito pequeno, e com meu irmão Ciro, quase 10 anos mais novo que eu, não foi diferente: nessa época, tínhamos assinatura e sempre recebíamos as novidades do Maurício de Sousa, à época pela Editora Globo.
Vi o endereço nas revistas e não hesitei ao acessar a internet pela primeira vez: www.monica.com.br. Todos os sites nessa época era bem tosquinhos, se comparados com hoje em dia, mas o da Mônica era até bem completo. Fucei bastante, até me deparar com uma seção que dizia mais ou menos o seguinte: "concurso para roteirista e desenhista da Turma da Mônica". Eu fazia, desde MUITO pequeno (estou falando de uns 6 anos de idade), minhas próprias histórias e personagens, inspirados em meus bichos de estimação, com fortíssima influência do Maurício. Sonhava em ser como ele. E agora... Era uma chance concreta de criar histórias que fossem lidas por mais gente, além de mim? E com personagens que eu conhecia extremamente bem e que me acompanharam desde sempre? Como não cair de cabeça?
Imprimi, li, reli, re-reli todas as instruções (na verdade eu andava com elas na mochila, onde quer que eu fosse. Devo ter lido aquilo umas cem vezes. Entendi que o roteiro era bem diferente do desenho, e que meu perfil era mais para roteirista: até tinha uma certa habilidade para o desenho, mas não havia desenvolvido (e isso nunca foi feito, infelizmente). O roteiro não precisava de capricho estético, apenas de clareza e boas ideias. Minha primeira história se chamava "A Namorada do Floquinho", e falarei dela mais adiante.
Houve um tempo em que eu "me especializei" em histórias mais curtas
Enviei para o endereço indicado e não falei nada para ninguém: não queria criar expectativas e aquilo tudo parecia surreal demais até para mim. Não acreditava mesmo que poderia dar em algo. Alguns meses se passaram, até que chega em casa, um envelope não da Editora Globo, com as revistas de sempre (da assinatura), mas da Maurício de Sousa Produções, e em MEU NOME. Não me lembro se fui o primeiro da casa a vê-lo. O fato é que era uma carta da Alice Keico Takeda, diretora executiva do estúdio e... ESPOSA do Maurício! (!!!). Eu nem podia acreditar... Meus pais também não.
A carta dizia que eles gostaram da minha historinha, e que eu tinha bom ritmo, conhecia bem a dinâmica deles, e que ela poderia ser utilizada pelo estúdio, mas que eu, por ser menor de idade, deveria ser representado por meus pais. E assim foi: passei um certo tempo enviando histórias regularmente, tendo meus primeiros contatos com contratos e burocracias comuns no meio, mas um tanto intimidadoras para um moleque tão jovem. Pode-se dizer que foi meu primeiro trabalho (mesmo sendo freelancer), e eu o havia conseguido por mérito próprio. Devo dizer que a ficha não caía: era algo tão incrível que eu não esboçava muita reação e seguia sem contar a muita gente. Acredito que muita gente, quando ouvia falar, dobrava o nariz, duvidando. Acho que até hoje, por sinal.
Claro, a família inteira festejou e veio me parabenizar. Para eles era algo incrível (até porque meus pais e tios também cresceram com a Mônica), mas de certa forma natural, já que, como disse, desde muito pequeno eu tentava criar minhas histórias, ainda que para que ninguém as lesse. Percebi que era real quando, num belo dia, o envelope de sempre com as revistas da assinatura chegaram em casa e... A minha primeira história (na verdade não lembro se a primeira publicada foi essa) estava lá: bem desenhada, colorida, um tanto diferente do que eu imaginara, mas na revista que compramos como clientes: aquilo que eu recebera era o que todos os leitores do Brasil também estavam lendo: "A Namorada do Floquinho", a história que saiu do meu quarto, com a turma procurando o cachorro do Cebolinha até encontrá-lo na casa de uma menina que tinha uma cachorrinha igual a ele.
Outra historinha sobre o Floquinho. Roteiro e publicação
Isso se repetiu várias vezes. Tenho algumas histórias de minha autoria, tanto na "versão roteiro", que me era devolvida, quanto na "versão revista", publicada. Eu fui até entrevistado por um jornal local, cuja equipe foi até a minha casa. Esse jornal chegava na portaria da minha escola, o Colégio Paulo VI (Vitória da Conquista-BA). Daí aconteceu um fenômeno curioso: eu sempre fui um outsider. Era bem extrovertido com alguns amigos mais próximos e bem fechado para todo o resto. Tímido ao extremo (a ponto disso ter me prejudicado bastante durante a vida). Também nunca fui de levar desaforo pra casa, então, claro que tinha alguns desafetos, inclusive na própria administração da escola. Vi pessoas como essas, de repente, se aproximando e, de certa forma, me "paparicando". Algumas pessoas que nunca sequer falavam comigo direito, fazendo questão de fazer trabalhos escolares que envolviam arte comigo, até na outra escola em que estudei, o Colégio Opção. Não lidei muito bem com isso. 
O fato é que, inexplicavelmente, eu parei de escrever roteiros. Eu tinha a chance de ganhar um bom dinheiro se me dedicasse bastante, e numa área em que eu me sentia à vontade. Não posso colocar a culpa apenas nesse primeiro contato com pessoas interesseiras, mas também no turbilhão de mudanças que a adolescência nos impõe. Não sei dizer mesmo quando e por que eu parei de fazer isso. Nem sei se eu seria capaz de criar algo novamente hoje em dia, mas guardo comigo essa lembrança gostosa de abrir a caixa de cartas e ver aquele envelope com o logotipo do Bidu, endereçado a mim, e não aos adultos da casa. Para mim, só de ter um desses já era especial. Ter feito parte, ainda que de forma minúscula, da história dos meus companheiros de infância, nem se fala.
Isso tudo foi pouco mais de dez anos antes de eu lançar meu primeiro CD. A arte sempre correu nestas veias. Infelizmente, perdi o roteiro original dessa primeira história, mas ainda tenho a revista. Ela também é facilmente encontrada no Google. Talvez minha mãe ainda tenha algo guardado com ela. Será que você já leu alguma historinha que saiu daqui?


07/06/2018

Erving Goffman - Manicômios, prisões e conventos (zine)

16:31

Esta zine foi produzida para apresentação de seminário na disciplina de Sociologia, no 1º semestre do Curso de Direito. Foram divididos seis grupos, cada um responsável por um a obra marcante na área social, como Casa Grande & Senzala, História da Loucura, Carnavais, Malandros e Herois e Manicômios, Prisões e Conventos, do sociólogo canadense Erving Goffman. Aqui trato de forma BEM superficial sobre cada um dos capítulos. A zine foi impressa e distribuída aos colegas. Confira, abaixo, a versão virtual, bem como a bibliografia utilizada:






Bibliografia:

FRAZÃO, Diva. Biografia de Erving Goffman. Disponível em: <https://www.ebiografia.com/erving_goffman/>. Acesso em: 07 jun. 2018.
GOFFMAN, Erving. Manicômios, Conventos e Prisões. São Paulo: Perspectiva, 1974.
KUNZE, Nádia Cuiabano. Resenha do livro: GOFFMAN, Erving. Manicômios, Prisões e Conventos. Tradução de Dante Moreira Leite. 7a edição. São Paulo: Editora Perspectiva, 2001. In: Revista HISTEDBR. v. 9, n. 33. Disponível em: <https://periodicos.sbu.unicamp.br/ojs/index.php/histedbr/article/view/8639569/7138>. Acesso em: 07 jun. 2018.
MARTINS, Carlos Benedito. A contemporaneidade de Erving Goffman no contexto das ciências sociais. Rev. bras. Ci. Soc.,  São Paulo ,  v. 26, n. 77, p. 231-240,  out.  2011.   Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102-69092011000300019&lng=en&nrm=iso>. Acesso em:  07  Jun.  2018.  


05/06/2018

O impacto econômico ao acesso ao Direito e à cidadania

22:51
"Operários" (Tarsila do Amaral, 1933)
O caput do art. 5º da Constituição Federal não deixa dúvidas: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”, porém, o que se vê, na prática, nem sempre condiz com a nossa maior lei: diariamente a Imprensa denuncia abusos, manobras e autoridades criando pomposas justificativas com o claro objetivo de manter impunes figurões da política ou influentes empresários. Por outro lado, é senso comum a afirmação de que a parcela da população desprovida de grande poder aquisitivo não raro é vítima de excessos e condenações prematuras.
Direito e cidadania são duas palavras intimamente relacionadas. Quando um cidadão é privado do acesso a uma, automaticamente sua relação com a outra é prejudicada, o que é gravíssimo e torna necessária a discussão por parte de todos. O objetivo deste texto é, ao menos, despertar nos leitores, o interesse por essa questão. O estudante e o operador do Direito não devem ter por meta apenas sua realização profissional individual: o acadêmico traz em si a responsabilidade da transformação social, através de pequenas (ou nem tanto) contribuições.
Tal tema é de tamanha importância que é capaz de por em cheque as bases da estrutura jurídica brasileira. Por que a Constituição não é cumprida? Quais as consequências de tal realidade? Como ela interfere no cotidiano da população e como esta reage, em suas diversas subdivisões? E como o cidadão comum poderia resgatar seus direitos e contribuir para uma sociedade realmente fiel ao texto de sua Lei Maior?


CIDADANIA

A cidadania credencia o cidadão a atuar na vida efetiva do Estado como partícipe da sociedade política. O cidadão passa a ser pessoa integrada na vida estatal. A cidadania transforma o indivíduo em elemento integrante do Estado, na medida em que o legitima como sujeito político, reconhecendo o exercício de direitos em face do Estado. (SIQUEIRA JUNIOR; OLIVEIRA, 2016, p. 231).

Muito se ouve falar em cidadania, especialmente na mídia televisiva, ao se referir a premissas antivandalismo ou à preservação do patrimônio público. Entretanto, este é um conceito consideravelmente mais abrangente e complexo, ignorado pela maioria da população brasileira. Em linhas gerais está intimamente ligado à ideia de participação na vida coletiva. Isso inclui, desde as tais ideias-clichê já citadas, passando pelos direitos e deveres civis, participação política (incluindo a partidária), econômica, social e, obviamente, jurídica. Ser cidadão é carregar em si o espírito da humanidade organizada, que abriu mão da liberdade total do nomadismo na natureza em troca dos benefícios da vida sob a jurisdição do Estado. Ser cidadão é, em sentido amplo, ter direitos e deveres para com esse contexto. Ao abrir mão de parte de sua liberdade, o homem tomou para si a responsabilidade, fator que, numa sociedade onde a educação é considerada apenas em segundo, terceiro plano, tende a ser instintivamente repelido pelo senso comum, criando um círculo vicioso: o Estado não provê como deveria, o povo não o pressiona (por ausência de consciência social e ignorância simples) e a geração seguinte surge ainda mais deficitária e distante do conceito original, que é a participação em prol do coletivo para, então, fertilizar o ambiente para as liberdades e vocações individuais. 


FATORES ECONÔMICOS E EDUCAÇÃO

Um dos principais indicadores de desenvolvimento é o número de pessoas pobres, com renda insuficiente para o atendimento das necessidades básicas. Esse indicador afeta o crescimento do setor de mercado interno, pois sua dimensão depende tanto do tamanho da população, como de seu poder aquisitivo. Esse setor amplia-se, portanto, com a redução da pobreza. (SOUZA, 2012, p. 9)

O descaso com a educação, conforme visto anteriormente, cria uma sociedade cada vez mais carente e refém da ética e moral dos detentores do poder: condenada a exercer as funções mais subalternas e menos intelectualizadas, a grande massa simplesmente aceita “de bom grado” o que lhe é oferecido: seja sob a forma de produtos e serviços de má qualidade (sem que haja sequer a hipótese de se rejeitar/boicotar ou reclamar por direitos), elementos culturais duvidosos ou mesmo opostos ao conceito de educação promovidos pelo sistema educacional como um todo. Um cidadão que desconhece sua condição enquanto tal jamais cobrará ações construtivas de políticos e iniciativa privada. A própria educação básica de boa qualidade já não se encontra, há tempos, disponível gratuitamente. O ensino privado, de alto custo, é privilégio de poucos que, curiosamente, ocupam a maioria das vagas em universidades públicas, ainda detentoras de um bom status de qualidade. O Estado, por sua vez, ciente de tal situação, não se ocupa em melhorar a educação básica: prefere praticar populismo, ao criar sistemas de cotas para pessoas em situação de desvantagem. O sistema se autoalimenta, mesmo com a chance e poder de resolver os problemas essenciais.




ACESSO À JUSTIÇA

Num país em que o povo não saiba dos direitos e o Poder Público não deseje este conhecimento, o direito nunca passará de mera possibilidade legal a serviço dos poderosos de ocasião” (ROCHA, 1993, p. 34). O acesso ao Direito, ou à Justiça nunca foi tarefa fácil, mesmo aos não-pertencentes às parcelas mais carentes da população. A própria terminologia é exclusiva. A burocracia do Estado cria barreiras sólidas. A falta de informação (mais uma vez voltamos ao problema da educação) consolida um “universo” distante e incompreensível aos leigos. Isto é consideravelmente ampliado quando relacionado à população carente. Diariamente verifica-se centenas de casos de abusos que são “engolidos em seco” simplesmente pelo total desconhecimento de direitos por parte do prejudicado. Isto se verifica na relação consumidor-produtor/prestador, na esfera penal, cível, em questões previdenciárias, administrativas (o descumprimento do princípio administrativo da eficiência, citado no art. 37, caput, da Constituição Federal e art. 116 da Lei 8.112/90, por exemplo) ou mesmo quanto à qualidade da programação oferecida, por concessão da União, pelas emissoras de TV aberta, onde, segundo o art. 38 da lei 4117/62 (Código Brasileiro de Telecomunicações, ainda vigente),

os serviços de informação, divertimento, propaganda e publicidade das empresas de radiodifusão estão subordinadas às finalidades educativas e culturais inerentes à radiodifusão, visando aos superiores interesses do País.

Diante desse quadro, é possível vislumbrar uma pequena dimensão da gravidade situacional: o fator econômico, intrinsecamente atrelado ao educacional, revela-se como parte fundamental dos problemas estruturais enfrentados pela sociedade brasileira.


REFERÊNCIAS

BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 05 mai. 2018.
BRASIL. Lei n. 4.117, de 27 de agosto de 1962. Institui o Código Brasileiro de Telecomunicações. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L4117.htm#lei4117>. Acesso em: 05 mai. 2018.
BRASIL. Lei n. 8.112, de 11 de dezembro de 1990. Dispõe sobre o regime jurídico dos servidores públicos civis da União, das autarquias e das fundações públicas federais. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8112cons.htm>. Acesso em: 05 mai. 2018.
COSTA NETO, José Wellington Bezerra da. Acesso à justiça e carência econômica. 2012. Dissertação (Mestrado em Direito Processual) - Faculdade de Direito, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2012. Disponível em: <http://www.teses.usp.br/teses/disponiveis/2/2137/tde-22042013-141734/pt-br.php>. Acesso em: 05 mai. 2018.
ROCHA, Cármen Lucia Antunes. Direito constitucional à jurisdição. In: TEIXEIRA, Sálvio de Figueiredo Teixeira (Coord). As garantias do cidadão na justiça. São Paulo: Saraiva, 1993.
SIQUEIRA JR, Paulo Hamilton; OLIVEIRA, Miguel Augusto Machade de. Direitos humanos: liberdades públicas e cidadania. São Paulo: Saraiva, 2016.
SOUZA, Nali de Jesus de. Desenvolvimento econômico. São Paulo: Atlas, 2012.



VERSÃO ZINE