Posted by : I. Malforea quinta-feira, 11 de maio de 2017


Tales Dourado aproveitou a oportunidade. Vai ter série de vídeos e EP para vender e ouvir no Spotify

Relutei um pouco sobre escrever ou não este texto. Primeiro porque já não sou das figuras mais simpatizadas na pequena cidade onde moro, segundo porque talvez seria gastar mais energia em algo inútil, pelos motivos que explicarei mais abaixo. Enfim... Doa a quem doer, nunca fui do tipo que deixa de falar algo por medo da opinião alheia. O título original seria "os músicos conquistenses realmente precisam de apoio?", mas acho que esse problema provavelmente não é exclusividade de minha cidade (Vitória da Conquista-BA).

Como disse na chamada para o projeto das CCCJL Sessions, existe um consenso conformista entre a esmagadora maioria dos músicos: eles não têm apoio, por isso não conseguem fazer nada de grandioso, o que acaba respaldando uma atitude comodista e pessimista da profissão. Inevitavelmente, muitos acabam por não chamar o ofício de "profissão", levando-a em banho-maria, sem muito entusiasmo, e se contentando com pouco. A discussão começou pela batida questão "autoral X cover".

Tudo bem, foram tantas pessoas batendo nessa tecla que eu resolvi aceitar o argumento, e fazer minha parte: dar o tal apoio, tão almejado. E criei as CCCJL Sessions, um projeto que eu ficaria louco de felicidade se estivesse do lado de lá do balcão: eu usaria as pautas da Distintivo Blue no Teatro do Centro de Cultura Camillo de Jesus Lima, em minha cidade, que me foram tão úteis, para gravar uma sessão de cinco músicas de artistas locais em vídeo, para que o músico as usasse como bem entendesse para se autodivulgar por aí. Além disso, eu mesmo publicaria os vídeos através da BLUEZinada!. Caso o áudio ficasse legal, também existia a possibilidade de lançar um EP de cada um, inclusive em plataformas de streaming, como o Spotify, além de uma coletânea com todos. Junto às gravações, também havia uma rápida sessão de fotos. Também estava em meus planos, ao final do projeto, a gravação de um podcast com todos os artistas e o lançamento de uma edição especial da zine. Tudo isso completamente grátis, e com o simples objetivo de... APOIAR os músicos locais.

Quando lancei a ideia foi uma animação só... Vários me procuraram para marcar suas pautas. A maioria "não poderia aquela semana", mas isso não seria problema. Uma pessoa marcou para o primeiro dia disponível da semana seguinte. Acordei cedo, como fazia com os próprios ensaios da DB, arrumei a mochila, botei todo o equipamento nas costas e fui ao CCCJL. Montei tudo e esperei. E esperei, e esperei por 1:35h até que desisti, desmontei tudo e fui embora. O funcionário do teatro me disse que o rapaz chegou cinco minutos após minha saída. Tarde demais, né?

Para encurtar, as sessões aconteceram para apenas duas pessoas. Todos os outros, que "não poderiam de imediato, mas adoraram a ideia e fariam nas semanas seguintes" simplesmente desapareceram. Será que o tempo anda tão apertado assim para TODOS a ponto de ser impossível reservar algumas horas para promover seu próprio trabalho? As sessões me tomam uma manhã inteira, mas cada vídeo me toma, no mínimo, três horas de trabalho, além de usar minha própria internet para upar. Fora que eu também crio teasers, e textos, e exponho meu nome, da banda e da zine junto a esses artistas. Mas para eles, é apenas reservar o tempo da gravação com suas músicas e acabou. Ah, vale lembrar que a única condição que impus foi: das cinco músicas, ao menos três deveriam ser autorais. Se a pessoa não fosse compositora, bastaria executar a música de algum amigo que o fosse. Afinal, covers dão dinheiro imediato, mas são as autorais que colocam seu nome na história.

Fiquei impressionado com o descaso que os artistas reservam a si mesmos: se eu recebesse uma proposta como essa, pularia de alegria, porque sei o quanto é realmente difícil encontrar gente disposta a ajudar... E de graça! E eu nem conhecia a maioria das pessoas que me procuraram... Foi quando lembrei que, alguns anos atrás, havia acontecido o mesmo, e eu não me lembrava: a primeira quando fiz um projeto de criar uma coletânea virtual apenas de artistas locais. Eu faria tudo: projeto gráfico, divulgação, produção, etc. Tudo o que eles precisariam fazer era... Me enviar um MP3 de pelo menos 256kbps de sua melhor música e a letra, com os nomes dos autores.

O que houve na ocasião? O mesmo descaso. Eu cheguei a COMPRAR o disco de duas das bandas envolvidas, porque, apesar de me disserem "que ideia maravilhosa! Tô dentro!", não se deram o trabalho de me enviar um e-mail com esses dois arquivos. Levaria uns cinco minutos? Eu, no pensamento de "essa banda não pode ficar de fora. É a história musical da cidade em jogo", acabei comprando os discos. Tenho até hoje, mas nem gosto de ouvir, porque me lembra o quanto eu fui patético e ingênuo. Pouco tempo depois, em 2011, fiz um projeto semelhante para bandas de blues nordestinas e o resultado foi parecido. Houve divulgação, houve gente se mostrando empolgada. Mas por que não deu certo?

Então... Será que realmente o que os músicos independentes precisam é apoio? Será que oportunidades como essa não aparecem com mais frequência do que imagino, mas eles simplesmente deixam passar? É duro pra mim, que batalho dia após dia, um passo de cada vez, para fazer a coisa acontecer, admitir isso: o que existe não é simplesmente falta de apoio, e sim preguiça e descaso. Falta de interesse. O sentimento é que ser músico não é uma profissão, exceto quando se ganha rios de dinheiro "mexendo a bundinha". Mas os próprios músicos de bandas desse tipo ouvem jazz ou algo realmente construtivo quando estão em casa. "Tocam essas coisas porque é o jeito". Será? É mesmo verdade que só se pode viver dignamente tocando o que não gosta? É a versão musical da pessoa que desperdiça sua vida num trabalho que detesta, sonhando com um mísero mês de férias por ano, em troca de dinheiro?

Desculpe, mas discordo totalmente. Minha filosofia de vida é simples: a vida é curtíssima para desperdiçá-la fazendo algo que não goste. Isso não é viver, e sim sobreviver. Não acredito que qualquer pessoa ou ser vivo tenha vindo a este mundo para sofrer. Viver é uma dádiva, e só isso já seria um bom motivo pra ser feliz. Até que se prove o contrário, só se passa por aqui uma vez e isso não pode ser em vão. Já desperdiçamos um tempo valioso dormindo pra desperdiçar uma parte equivalente da vida preso a um emprego desagradável. Quando é que sobra tempo para ter um punhadinho de felicidade? Que desânimo é esse que faz músicos, que sempre dizem que vivem pela música, amam a música, blá blá blá, tratarem "a coisa que mais amam" com tamanho descaso? Cair na confortável posição do injustiçado e incompreendido que nunca vai crescer porque ninguém ajuda? 

Dificuldades existem para todos, em níveis diferentes, mas o sol também brilha para todos. Quando se quer algo, o tempo, antes indisponível, aparece, a dificuldade é contornada de alguma forma e as oportunidades se tornam menos turvas. Como dizem os concurseiros, "sorte é estar preparado quando a oportunidade aparecer". Surgiu, para mim, uma grande oportunidade semelhante à que eu ofereci: gravar um clipe, de graça, para ajudar tanto à banda quanto aos que o produziriam. Foi trabalhoso, demandou organização, tempo, gasolina, paciência, poeira na cara, aranha na cabeça, cara feia de estranhos e conhecidos, mas não deixei a oportunidade passar: virou isto aqui:


Amigo(a), se tem alguém que conhece a difícil realidade de ser um músico independente sou eu. As dificuldades são enormes e, sim, não temos apoio. Mas não fico parado com a boca aberta, cheia de dentes, esperando algum salvador da pátria aparecer e me salvar. Eu TENTO. Eu CORRO ATRÁS. Eu BUSCO. E ainda assim acho que poderia fazer mais. Eu vivo num lugar extremamente desfavorável ao tipo de música que faço, mas ainda assim pago minhas contas com a minha música, que não tem nada de "mexer a bundinha" envolvido. Já tive minha fase de me sentir injustiçado, boicotado até. Mas... Dane-se! O mundo é grande e é de todos, e só quem conhece minhas dores sou eu mesmo, por isso, sigo em frente. 

Eu poderia, sabendo dessas dificuldades, me focar em meu próprio umbigo e dizer "danem-se" os acomodados, e muitas vezes dá vontade de fazer isso. Mas ainda assim encontro espaço pra colaborar com os outros: todo dia faço alguma "consultoria rápida" de algum assunto relacionado ao music business, na maioria das vezes para pessoas que mal conheço. A própria existência da BLUEZinada! veio desse sentimento de colaboração com outros artistas, porque isso significa colaborar com o todo: formar público, fomentar a arte. Faço isso porque sou santo? Não! Eu faço porque GOSTO de ver bons projetos tomando forma. Gosto de ver artistas crescendo, porque eu me enxergo neles. Estou na mesma estrada e ver gente como eu chegando aos seus objetivos me ajuda a não desistir dos meus próprios. Então, me deparo com artistas talentosos se boicotando, e jogando a culpa na falta de apoio... É confortável e sempre leva ao inevitável caminho da FRUSTRAÇÃO.

Meu maior medo é chegar nesse caminho, mas frustração por ter perdido tempo e não ter tentado. Tenho medo de chegar à velhice, olhar alguém conquistando o que eu queria conquistar, mas lembrar que eu não me dispus realmente a chegar no objetivo: me acomodei, fui preguiçoso e não tive iniciativa. Isso pra mim é a maior das frustrações. E quando eu vejo alguém caindo nessa por puro comodismo ou preguiça não consigo esconder a decepção. 

Amigo(a): você não compõe? TENTE! E de forma constante, até ficar bom. Enquanto isso, procure compositores em sua própria cidade (há dúzias deles por aí, esperando alguém para tocar suas criações). Não sabe como se produzir? GOOGLE! Não sabe se divulgar? GOOGLE! Não sabe tocar? YOUTUBE! LIVROS! Quer fazer shows? Ganhar dinheiro com sua música? Tudo isso acima, mais PESSOAS! Faça contatos, pouco a pouco. Sempre terá alguém romântico como eu, disposto a ajudar, de alguma forma. O mundo é comunidade, e existem comunidades e comunidades nele, inclusive de gente disposta a ajudar. Mas fechar os olhos e ouvidos, virar as costas, sentar no sofá e só reclamar que nada acontece não lhe ajudará em nada! E o tempo não perdoa os inertes!

Falando nisso... As CCCJL Sessions estão canceladas. Quem gravou, gravou e terá tudo o que foi prometido. Já quem deixou passar, vai ter que andar com as próprias pernas, sem essa mãozinha extra. O tempo não perdoa os inertes.








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