11/06/2018

Senta, que lá vem história... Os roteiros da Turma da Mônica

Algumas das cartas, envelopes e contratos da época
O ano era 1998 (ou 97, sei lá): eu tinha entre 14 e 15 anos e estava maravilhado com meus primeiros contatos com a internet (discada), num PC com Windows 95 (aquele do puma na área de trabalho), recém-comprado por meus pais. Nessa época não havia muito o que se ver, apenas explorar aquele negócio que se falava tanto nos telejornais. Passei a infância lendo Turma da Mônica, Disney, Ely Barbosa e alguns outros. Tinha centenas de revistas, desde muito pequeno, e com meu irmão Ciro, quase 10 anos mais novo que eu, não foi diferente: nessa época, tínhamos assinatura e sempre recebíamos as novidades do Maurício de Sousa, à época pela Editora Globo.
Vi o endereço nas revistas e não hesitei ao acessar a internet pela primeira vez: www.monica.com.br. Todos os sites nessa época era bem tosquinhos, se comparados com hoje em dia, mas o da Mônica era até bem completo. Fucei bastante, até me deparar com uma seção que dizia mais ou menos o seguinte: "concurso para roteirista e desenhista da Turma da Mônica". Eu fazia, desde MUITO pequeno (estou falando de uns 6 anos de idade), minhas próprias histórias e personagens, inspirados em meus bichos de estimação, com fortíssima influência do Maurício. Sonhava em ser como ele. E agora... Era uma chance concreta de criar histórias que fossem lidas por mais gente, além de mim? E com personagens que eu conhecia extremamente bem e que me acompanharam desde sempre? Como não cair de cabeça?
Imprimi, li, reli, re-reli todas as instruções (na verdade eu andava com elas na mochila, onde quer que eu fosse. Devo ter lido aquilo umas cem vezes. Entendi que o roteiro era bem diferente do desenho, e que meu perfil era mais para roteirista: até tinha uma certa habilidade para o desenho, mas não havia desenvolvido (e isso nunca foi feito, infelizmente). O roteiro não precisava de capricho estético, apenas de clareza e boas ideias. Minha primeira história se chamava "A Namorada do Floquinho", e falarei dela mais adiante.
Houve um tempo em que eu "me especializei" em histórias mais curtas
Enviei para o endereço indicado e não falei nada para ninguém: não queria criar expectativas e aquilo tudo parecia surreal demais até para mim. Não acreditava mesmo que poderia dar em algo. Alguns meses se passaram, até que chega em casa, um envelope não da Editora Globo, com as revistas de sempre (da assinatura), mas da Maurício de Sousa Produções, e em MEU NOME. Não me lembro se fui o primeiro da casa a vê-lo. O fato é que era uma carta da Alice Keico Takeda, diretora executiva do estúdio e... ESPOSA do Maurício! (!!!). Eu nem podia acreditar... Meus pais também não.
A carta dizia que eles gostaram da minha historinha, e que eu tinha bom ritmo, conhecia bem a dinâmica deles, e que ela poderia ser utilizada pelo estúdio, mas que eu, por ser menor de idade, deveria ser representado por meus pais. E assim foi: passei um certo tempo enviando histórias regularmente, tendo meus primeiros contatos com contratos e burocracias comuns no meio, mas um tanto intimidadoras para um moleque tão jovem. Pode-se dizer que foi meu primeiro trabalho (mesmo sendo freelancer), e eu o havia conseguido por mérito próprio. Devo dizer que a ficha não caía: era algo tão incrível que eu não esboçava muita reação e seguia sem contar a muita gente. Acredito que muita gente, quando ouvia falar, dobrava o nariz, duvidando. Acho que até hoje, por sinal.
Claro, a família inteira festejou e veio me parabenizar. Para eles era algo incrível (até porque meus pais e tios também cresceram com a Mônica), mas de certa forma natural, já que, como disse, desde muito pequeno eu tentava criar minhas histórias, ainda que para que ninguém as lesse. Percebi que era real quando, num belo dia, o envelope de sempre com as revistas da assinatura chegaram em casa e... A minha primeira história (na verdade não lembro se a primeira publicada foi essa) estava lá: bem desenhada, colorida, um tanto diferente do que eu imaginara, mas na revista que compramos como clientes: aquilo que eu recebera era o que todos os leitores do Brasil também estavam lendo: "A Namorada do Floquinho", a história que saiu do meu quarto, com a turma procurando o cachorro do Cebolinha até encontrá-lo na casa de uma menina que tinha uma cachorrinha igual a ele.
Outra historinha sobre o Floquinho. Roteiro e publicação
Isso se repetiu várias vezes. Tenho algumas histórias de minha autoria, tanto na "versão roteiro", que me era devolvida, quanto na "versão revista", publicada. Eu fui até entrevistado por um jornal local, cuja equipe foi até a minha casa. Esse jornal chegava na portaria da minha escola, o Colégio Paulo VI (Vitória da Conquista-BA). Daí aconteceu um fenômeno curioso: eu sempre fui um outsider. Era bem extrovertido com alguns amigos mais próximos e bem fechado para todo o resto. Tímido ao extremo (a ponto disso ter me prejudicado bastante durante a vida). Também nunca fui de levar desaforo pra casa, então, claro que tinha alguns desafetos, inclusive na própria administração da escola. Vi pessoas como essas, de repente, se aproximando e, de certa forma, me "paparicando". Algumas pessoas que nunca sequer falavam comigo direito, fazendo questão de fazer trabalhos escolares que envolviam arte comigo, até na outra escola em que estudei, o Colégio Opção. Não lidei muito bem com isso. 
O fato é que, inexplicavelmente, eu parei de escrever roteiros. Eu tinha a chance de ganhar um bom dinheiro se me dedicasse bastante, e numa área em que eu me sentia à vontade. Não posso colocar a culpa apenas nesse primeiro contato com pessoas interesseiras, mas também no turbilhão de mudanças que a adolescência nos impõe. Não sei dizer mesmo quando e por que eu parei de fazer isso. Nem sei se eu seria capaz de criar algo novamente hoje em dia, mas guardo comigo essa lembrança gostosa de abrir a caixa de cartas e ver aquele envelope com o logotipo do Bidu, endereçado a mim, e não aos adultos da casa. Para mim, só de ter um desses já era especial. Ter feito parte, ainda que de forma minúscula, da história dos meus companheiros de infância, nem se fala.
Isso tudo foi pouco mais de dez anos antes de eu lançar meu primeiro CD. A arte sempre correu nestas veias. Infelizmente, perdi o roteiro original dessa primeira história, mas ainda tenho a revista. Ela também é facilmente encontrada no Google. Talvez minha mãe ainda tenha algo guardado com ela. Será que você já leu alguma historinha que saiu daqui?


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